pílulas do twitter

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    3 de nov. de 2004

    Idas e vindas

    Eu gravei um cd para ela.
    E também fiz um poema.
    Só que poemas eu sempre fiz, e faço. Só não mostro.
    Cds eu não faço, mas fiz um pra ela.

    O cd que eu fiz para ela tinha músicas nacionais.
    O poema que eu fiz tinha influências nacionais.
    Mas não era para ela, era para mim.
    O cd era para ela.

    E aí um dia acabou.

    No cd tinha músicas que eu gostava.
    Tinha músicas que ela não conhecia.
    Mas aprendeu a gostar por minha causa.
    No poema, o que tinha mesmo?

    Coloquei um trecho de uma música do cd no meu blog.
    Ela completou com o restante da música nos comments.
    Um trecho do poema dizia:
    Às vezes as coisas não são como era pra ser.

    Mas acabou.

    Só restou o poema.
    Roubaram o cd dela.
    Ela me pediu outro. Eu fiz.
    Mas não fiz outro poema.

    25 de out. de 2004

    Back in black

    Isso nunca me aconteceu antes. Calma, estou falando de ficar mais de um mês sem atualizar esse blog. A partir de agora, creio as condições estão muito mais favoráveis para que isso não volte a ocorrer. Tenho um computador novo e uma conexão aqui no hotel. E acho que esses argumentos bastam para não deixar o blog abandonado. Segue um pequeno artigo que escrevi, a título de debut para o site Sequelados.

    Seqüelados de todo mundo, uni-vos

    Foi com satisfação que aceitei o convite de redigir algumas palavras para este site, após dar uma boa olhada no mesmo. Primeiro de tudo, gostaria de dizer que a iniciativa do próprio é muito boa: a internet nos traz essa possibilidade de uma desvinculação do conteúdo estritamente comercial. Dessa forma, creio que o que contêm aqui trata-se do mais puro gosto de seus editores e não está colocado de forma a empurrar goela abaixo conteúdos que interessam a uns e outros.

    Pensando no nome do site, vem à cabeça o significado da palavra seqüela. Sempre que pensamos nela, geralmente ligamos às sequelas físicas deixadas por alguma doença ou acidente:

    seqüela s.f. anomalia conseqüente a uma moléstia, da qual deriva direta ou indiretamente (Dicionário Eletrônico Houaiss)

    Se pudermos estender à seqüela não só conseqüências físicas, mas também psicológicas e/ou emocionais, as seqüelas em nossas vidas começam a ficar mais evidentes: a psicologia considera que somos produtos de três forças (ou pressões): a filogenética (nossos genes), a ontogenética (nossa convivência) e a cultural (o meio que nos cerca). Esses fatores são os determinantes da pessoa que eu sou e que você é neste momento.

    E estas três forças podem (e vão) deixar seqüelas para sempre, quando você começa a perceber que tem mais coisas de seus pais que imaginava (filogenética), age como seus amigos e pessoas próximas (ontogenética) e se porta como brasileiro, paulista, gótico, estudante, religioso, caipira, ou o que quer que seja (cultural).

    Em suma, você que está lendo isso aqui é um seqüelado não só porque acessa esse site. Mas o é pelo simples fato de pertencer à raça humana. E aí, quais são suas seqüelas?

    Shirov, 24, é seqüelado e tenta entender de psicologia porque sabe que têm coisas que não vai entender nunca.

    18 de set. de 2004

    Tal mãe, tal filho

    Minha mãe conta que aconteceu um diálogo inusitado quando conheceu a Pascoalina, que mais tarde tornaria-se sua amiga:

    - Seu nome é Pascoalina porque você nasceu no dia de Páscoa?
    - Não, eu nasci no dia de finados!
    - Ah, então ainda bem que seu pai não te chamou de Finadina...

    Agora comparem com o seguinte diálogo, que travei com uma professora daqui de Paranaguá:

    - Por que o nome da senhora é Liones?
    - Ah, acho que é por causa que meu pai era um fanático torcedor do Rio Branco, o time daqui. E o mascote do time é um leão, daí vem o nome Liones.
    - Ahn, então ainda bem que a senhora não nasceu em Londrina, porque o mascote do time de lá é o tubarão, e a senhora teria de se chamar Tubarones...

    13 de set. de 2004

    Palavrão

    Querem saber o que eu fiz de bom hoje? Aprendi a falar a maior palavra da língua portuguesa:

    pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico

    Trata-se da pessoa acometida de uma rara doença, causada pela inalação de cinzas vulcânicas. Ela veio para desbancar o já manjado anticonstitucionalissimamente, que tem apenas 29 letras, um pouco menos que as 46 aí de cima.

    Como no Brasil não há vulcões, quase não é necessário dizer que a partir de agora, vou utilizar esta palavrinha para denominar qualquer pessoa com problemas respiratórios...

    16 de ago. de 2004

    Festa de criança - conto

    Na sociedade de consumo em que vivo, criança que ganha festa é apenas a criança burguesa, oriunda de uma classe abastada, com o futuro garantido e pago à vista, no cartão. Salão alugado, bem decorado, palhaços animadores contratados e um ótimo serviço de bufê: comida farta, e boa. A criança da festa é minha parente, mas continuo a sustentar minha opinião altamente politizada; afinal já estou no segundo ano de faculdade, faço parte do diretório acadêmico e estou plenamente conscientizado da opressão sofrida pelas classes populares imposta pelos detentores do capital e do poder ? neste caso, meus sorridentes tios, satisfeitos e divertindo-se ao máximo.

    Contemplo a festa com desdém, contrariado por ser obrigado a comparecer no programa-família, e fulmino aqueles pequenos burgueses com meu ar de pseudo-intelectual-revoltado-contra-o-sistema-em-sua-impotência. Mas esse olhar já estaria condenado a dissipar-se duas mesas adiante.

    Lá estava ela. Meu primeiro e único amor. Carolina, Carol bela, Seu Jorge nunca me deixou esquecer. Sinto novamente as marteladas no âmago - que agora se encolhe e congela (-Garçom, mais uísque!) ? que costumava sentir na escola, aos quatorze anos, guri ainda, mas fadado a sofrer com as agruras de um sentimento adultescido. Semana após semana aquela garotinha magra mas encorpada, morena de lindos cabelos rentes ao pescoço lindamente delineado e convidativo, aparelho nos dentes para corrigir não sei o quê e pernas longas que não tinham fim, foram me conquistando e me transformando. Tempos depois vim a saber que todo garoto tem seu tempo de encantamento, paixão repentina e devastadora, alguns conseguem lidar melhor com ele, só isso. Mas esta que eu sentia estou certo que ninguém jamais sentiu. Será que eu conseguiria trabalhar com essa tese em minha pós-graduação? Carolina, Carol bela.

    Era isso, ela era perfeita, a escolhida, a eleita. Menina de sorte você, devo-lhe toda minha devoção, meu carinho, meus afetos pelo simples fato de mal lhe conhecer e já te adorar. A única dificuldade em que este guri se achava era expressar todos esse sentimento que ora lhe assaltava e preenchia. Quando estava em sua companhia gelava, tremia, suava frio e não sabia o que dizer senão o necessário para passar-me por simpático. Não, definitivamente, não conseguia expressar o que verdadeiramente sentia.

    E assim foi, por dois anos inteiros perdurou este amor secreto (quem nunca teve um que atire a primeira pedra!), até receber a notícia de que se mudaria para o Nordeste e nunca mais a veria. Para o Nordeste foram-se todas minhas esperanças, meus anseios, meus planos. Um pedaço de mim mudou-se para o Nordeste. Quão difícil foi retomar minha vidinha normal com essa falta, um vazio impreenchível; eu agora um colegial mais responsável e preocupado com sua vida acadêmica. Com exceção dos sonhos e devaneios, nunca mais a vi.

    Festa de criança. Uma ocasião verdadeiramente chata que assume agora perspectivas outras. Sentada com seus pais, lá está ela, Carolina, Carol bela, sorridente e amável como sempre, mas agora uma mulher formada, ainda que reparo nela os traços resquiciosos daquela garotinha meiga que me conquistou. Em meio ao meu momento de epifania, perdido entre lembranças etéreas e admiração surreal, ela se vira (linda, linda), reconhece-me e me destina o ?oi? mais bonito que já recebi em minha existência. Arrepio-me, tento me recompor, não sei o que faço, vou até lá? Chamo-a aqui? Pego o microfone do videokê e faço minha declaração de amor silenciada por todos esses anos?

    Neste momento, vêm-me em flashes rápidos toda minha história de paixão e desilusão. Preciso fazer algo, mas num movimento contrário, introvertido, acompanho a festa estático, contemplativo, sem coragem de sequer lhe dirigir novamente o olhar. O que me acontece? Por que este guri de quatorze anos novamente toma conta de mim a me deixar tão confuso, tão desorientado, que sequer consigo organizar minhas idéias?

    A festa já está no fim e ela já vai-se embora. Ah, como gostaria de ir lá me despedir, e, entre uma convenção e outra, sussurrar-lhe o quanto a amei, o quanto a queria, o quão bom é sentir sua presença e apreciar sua beleza. Traduzir em palavras a energia do meu desejo, e como minha vida de colegial esvaiu-se desprovida de sentido sem ela ao meu lado. Como eu gostaria...

    Estas são as últimas coisas em que penso no momento em que a vejo desaparecer pela porta do salão de festas alugado e decorado com balões coloridos e o tema de uma história infantil, algo sobre uma princesa que esperava seu príncipe encantado.

    Festa de criança. Definitivamente, começo a achar que estou no lugar certo.

    8 de ago. de 2004

    Novo entretenimento

    Mais uma novidade online que surge para deixar-nos mais horas na net (o que aconteceu com os já citados neste blog - Isketch e Orkut), agora para quem gosta de futebol.
    A bola da vez é o Hattrick. O nome vem de uma exrpesão em inglês designada a jogadores que fazem três gols numa mesma partida. Diz a lenda que, na década de 30, uma fábrica de chapéus premiava todo jogador que fizesse tal feito, daí o nascimento da expressão que perdura até hoje.

    No Hattrick não há gráficos 3D, nem tampouco comandamos os jogadores, como nos clássicos FIFA ou Winning Eleven. Trata-se de um gerenciador de futebol online, uma espécie de RPG sobre o rude esporte bretão, onde você atua como o cartola e técnico do time: faz a escalação, escolhe o esquema tático, modos de treino, define quanto vai gastar com as divisões de base, etc.

    Como ele nasceu na Suécia, é de lá que vem o maior número de times e cujo horário dos jogos é o oficial. Eles têm a seleção mais forte do planeta Hattrick, batida apenas uma vez em jogos oficiais, na final da última Copa do Mundo, pela Noruega(?!). O jogo nunca acaba: os jogadores melhoram, ficam velhos e você pode subir ou descer de divisão de acordo com o desempenho do seu time.

    Vai lá: www.hattrick.org. Há uma lista de espera para receber um time que demora em média uma semana. Vale uma advertência: o jogo é altamente viciante e pode provocar distúrbios de realidade.

    5 sinais que você está viciado em Hattrick:
    1 - Achar que a Suécia é o maior celeiro de craques do mundo.
    2 - Acertar seu relógio pelo horário da Suécia.
    3 - Sua namorada saber os horários dos jogos de seu time e ter o bom senso de não incomodá-lo nessa hora.
    4 - Começar a estudar Economia, afinal, você precisa de dinheiro para novas contratações.
    5 - Escrever sobre o Hattrick no blog coletivo.

    Página do meu time no Hattrick: Chique Demais
    Originariamente postado no Soltaosom

    31 de jul. de 2004

    Mude

    Muitos já receberam esse poema-manifesto por e-mail. O poema Mude, de autoria de Edson Marques. Vi esse cara no bom programa Provocações, da Cultura. Ele se diz, além de poeta, filósofo e escritor. Seu poema circula pela internet como sendo de autoria de Clarice Lispector por ele ter utilizado uma frase dela em seu final. Ora, claro que não poderia ter sido dela, afinal Clarice Lispector nunca escreveu poesia em sua vida, apenas prosa.
    Em minha opinião, este poema tem altas doses de auto-sugestão e a própria sugestão direta, e por isso não chega a ser objeto de apreciação. Porém, aí está ele para que vocês decidam: Mude, de Edson Marques

    21 de jul. de 2004

    We got a winner

    Sim, nós temos um vencedor. O único que se arriscou a responder à Questão Ambiental e corretamente! Recapitulando, a pergunta era: por que os ursos polares não são predadores naturais dos pingüins?

    E a resposta veio com o leitor Fábio (não achei e-mail ou blog de referência, se tiver, mande aí Fábio!), que com discernimento nos explica:

    Porque eles vivem a um mundo de distância: os ursos polares estão no pólo norte, e os pingüins, no pólo sul!

    Sábias palavras, Fábio!

    12 de jul. de 2004

    Um ano mais

    Ontem foi meu aniversário. Nada de comemorações ou maiores excessos, estes eu deixo para o resto do ano. Na verdade, passei-o praticamente na estrada. Aliás, pela manhã, fomos - eu e a Ellen - ao museu Oscar Niemeyer em Curitiba. Valeu para conhecer a estrutura, não vale uma nova visita. Não me agrada ver uma exposição sobre o Surrealismo com apenas um trabalho de Dalí e uns parcos três de Miró.

    No momento encontro-me em Santa Cruz do Sul-RS a trabalho. Olhando um ano para trás, acredito que estou em melhor situação do que aquele tempo. Sempre é bom estar, ou pelo menos acreditar. Há algum tempo eu venho pensando que nunca falei de assuntos mais pessoais neste blog, e tenho certeza de que assim continuará: prefiro colocar assuntos mais interessantes àqueles que aqui adentram.

    Este post é apenas uma quebra de protocolo para marcar esta data, e também uma dívida de satisfação àqueles amigos que por força das circunstâncias acabam ficando sem notícias: espero que um dia ou outro venham a ler este, e reencontrá-los no mais breve espaço de tempo.

    Esta mensagem, excerto de 100 dias entre céu e mar, de Amyr Klink, é para eles:

    Passados dois meses de tantas histórias, comecei a pensar no sentido da solidão. Um estado interior que não depende da distância, nem do isolamento; um vazio que invade as pessoas...

    E que a simples companhia ou presença humana não pode preencher. Solidão foi a única coisa que eu não senti, depois que parti, nunca, em momento algum.

    Estava, sim, atacado de uma voraz saudade. De tudo e de todos, de coisas e de pessoas que há muito tempo não via.

    Mas a saudade às vezes faz bem ao coração. Valoriza os sentimentos, acende as esperanças e apaga as distâncias.

    Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudade... mas não estará só.

    1 de jul. de 2004

    Inocência

    mas o legal é quando mesmo depois de alguns anos de clausura
    você acorda ao lado de sua amada e se descobre um felizardo...

    o legal é saber que todos os acidentes de percurso valem a pena
    quando lhe aproximam ainda mais da pessoa certa...

    o legal é dormir sabendo que ao acordar você poderá mais uma vez
    contar todas as pintinhas e sinais da pele de sua escolhida
    só para ter certeza de que não esqueceu nada

    de que nada saiu da sua órbita
    o universo e os elementos continuam conspirando a seu favor
    e continua reinando, enquanto dorme.

    (in O outro mundo de Manuela Rosário - Mundo Livre S/A)

    29 de jun. de 2004

    Questão ambiental

    Por que os ursos polares não são predadores naturais dos pingüins?

    Repostas nos comments!

    23 de jun. de 2004

    Vintage Labels



    Há algum tempo minha mãe me contou que minha irmã gostaria de decorar alguns utensílios domésticos - como caixas e estantes - com aqueles adesivos antigos que outrora colavam-se nas malas como recordação pela passagem por determinado país/cidade/hotel.

    Achamos em São Paulo, mais precisamente na feira de antigüidades da praça Benedito Calixto, um senhor que vende reproduções destes adesivos, além de algumas malas decoradas com os mesmos e até alguns destes originais.

    E também vi a sugestão de um site em algum programa no Discovery: Vintage Labels. Lá tem a história destes adesivos e uma galeria de muitos deles, divididos por temas. Vale a pena dar uma conferida.

    Vai lá: www.vintagelabels.org

    19 de jun. de 2004

    Pérolas parnanguaras

    Há uma semana na cidade de Paranaguá-PR, lembrei-me muito de Birigui, talvez pelo porte da cidade e pelas milhares de bicicletas na rua.

    Duas pérolas captadas em diálogos meus com os nativos:

    Nativo: A cidade aqui é hospitaleira né?
    Eu: Acho que sim.
    Nativo: Você não achou? Eu achei...
    Eu: Ah, você não é daqui?
    Nativo: Eu sou sim, nasci aqui!

    Eu: Você sabe onde tem um caixa 24 horas aqui?
    Nativo: Ah, ali no Unibanco deve ter. Acho que ali tem até um 48 horas...

    11 de jun. de 2004

    Ter uma vida
    Ter um emprego
    Ter uma carreira
    Ter uma família
    Ter uma televisão grande, máquina de lavar, carros, toca-discos, abridor de latas elétrico.
    Ter saúde, colesterol baixo, seguro dentário.
    Ter prestações fixas para pagar
    Ter uma casa. Ter amigos.
    Ter roupas e acessórios.
    Ter um terno feito do melhor tecido.
    Se masturbar domingo de manhã pensando na vida.
    Sentar no sofá e ficar vendo televisão.
    Comer um monte de porcarias
    Acabar apodrecendo no final
    Ter uma família e se envergonhar dos filhos egoístas, que pôs no mundo para substituí-lo.
    Ter futuro.
    Ter uma vida.
    Por que eu iria querer isso?

    Do Trainspotting, de Irvine Welsh

    2 de jun. de 2004


    (Paulo Leminski;
    desenho de João Virmond Suplicy)

    21 de mai. de 2004

    Contos da txt magazine - parte IV

    Eduardo e Mônica
    de João Pedro de Barros

    Eu e Julia formávamos o casal perfeito. Pelo menos era o que todo mundo do colégio acreditava e, pensando bem, até que eles tinham lá seus motivos. Nós estávamos sempre juntos, dividindo nossos cigarros, as mãos entrelaçadas no bolso do sobretudo preto que herdei de meu avô, os ouvidos sintonizados em tudo que vinha do Reino Unido. Tudo muito lindo e maravilhoso. Até que um dia Ana Teresa me convidou para sua festa de quinze anos.
    "Você não vai nesta festa, vai", Julia perguntou olhando com reprovação para o convite que eu tinha em minhas mãos.

    Bebi mais um gole do meu chá preto. Você sabe, eram os anos 80 e eu tinha esta obsessão ridícula em me aproximar ao máximo dos britânicos, da forma de me vestir aos meus hábitos alimentares no intervalo do colégio.
    "Não sei", respondi sem muita convicção. "A gente nunca se falou. Ela é nova na minha turma."
    "Eu sei quem ela é."
    "Todo colégio sabe."
    "Como assim todo colégio sabe?"

    E, então, eu cometi meu primeiro erro imperdoável do dia. Mas, entenda, eu era um adolescente e não sabia nada de mulheres.
    "Sei lá, Julia", eu disse. "Ela é bonita, ué."
    "Bonita?", ela gritou. "Ela é toda certinha, sempre arrumadinha com aquelas roupas de grife e aquele sorriso classe média."
    "Sorriso o quê?", perguntei.
    "Sorriso classe média. Ah, você sabe muito bem o que eu quero dizer, João", Julia estava visivelmente irritada. "Não posso acreditar que você acha esta tal de Ana Teresa bonita."
    "Por quê?"
    "Porque ela não é o seu tipo."
    "E qual é o meu tipo?", e este foi meu segundo erro imperdoável do dia e, aos berros, Julia disse que agora eu iria nesta festa nem que fosse à força e que não iria falar comigo durante um mês e, graças a deus, fui salvo pelo gongo: a sirene do colégio tocou e nós voltamos para nossas respectivas salas de aula.

    O irônico é que eu mostrei à Julia aquele maldito convite porque, afinal de contas, ela era minha namorada e queria que fosse comigo na festa. Mas aconteceu o que aconteceu e eu, que já estava cansado do preconceito bobo dela, peguei um paletó emprestado do meu pai, prendi meus cabelos compridos em um rabo de cavalo ridículo, pedi uma ajuda à minha irmã para escolher um presente decente, atravessei a cidade em dois ônibus lotados e só por raiva fui sozinho ao aniversário de Ana Teresa.
    "Anaïs Anaïs!"
    "O quê?"
    "Anaïs Anaïs...", Ana Teresa repetiu enquanto abria o meu presente. "Adoro este perfume."

    Pensei em dizer a verdade, sei lá, falar que foi minha irmã quem escolheu e tal, mas uma mentirinha de vez em quando não faz mal a ninguém.
    "Eu também adoro. Quero dizer, acho que combina com você."
    Ela sorriu, beijou meu rosto e disse:
    "Muito obrigada, João."

    E assim, depois de ficar embasbacado com o fato de Ana Teresa lembrar o meu nome, sentei feliz em uma das mesas excessivamente decoradas do Jockey Club, comecei a aproveitar o Chivas Regal de graça, abstraí todo o clima colunável da festa e fiquei observando a aniversariante andando de lá para cá, recebendo os convidados, abrindo os pacotes, fofocando com as amigas e, quando dei por mim, estávamos cantando parabéns e depois todo mundo invadiu salão para dançar e eu fiquei de mau humor.

    Eu estava sozinho na mesa, enchendo a cara e pensando em Julia. Se ela estivesse aqui provavelmente teria dentro da sua bolsa uma fita cassete com alguma banda decente e obrigaria o DJ a coloca-la. Ou então iria me arrastar para outro canto do Jockey Club, para um lugar longe daqueles tecnopops de terceira categoria e música de surfista, e me encheria de beijos e diria que nesta noite a gente iria transar para valer. Mas quando vi já eram quase duas horas da manhã e eu continuava ali com a cara amarrada, pensando em alguém que não queria pensar e tudo isso por causa das músicas que estavam tocando. Eu era mesmo um grande idiota. Por isso, levantei da cadeira, enchi meu copo de uísque e fui dar uma volta pelo salão.

    Não sei dizer ao certo se foi o seu jeito desengonçado de dançar, tentando se equilibrar com os pés descalços naquele chão encerado, ou se foi o seu sorriso de quem sabia se divertir. Mas algo me fez ficar estático, encostado em uma parede, olhando fixamente para Ana Teresa.
    E, então, aconteceu.

    O DJ disse que iria colocar a música predileta da aniversariante. E enquanto Renato Russo cantava "Eduardo e Mônica", senti meu coração disparar e cada vez que lia os lábios de Ana Teresa acompanhando a letra quilométrica da música, tinha mais e mais vontade de me perder por entre aquela boca, em um beijo cheio de poesia e, talvez fosse até efeito das doses excessivas de Chivas Regal, mas eu via o futuro dançando à minha frente e não havia mais nada que pudesse fazer. Por isso, bebi o resto do uísque e segui meu coração.

    Para a surpresa de todos e, confesso, minha também, eu e Ana Teresa conversamos durante todo o resto da madrugada. Fui o último a sair do Jockey Club, com um telefone no bolso do paletó, o mesmo telefone que disquei no domingo para combinar uma tarde em um cinema no centro da cidade porque, como você deve saber, eram os anos 80 e ainda não havia cinema em shopping centers. E, como bem disse Renato Russo, mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente, uma vontade de se ver e depois de pouco tempo eu e Ana Teresa formamos um casal perfeito em todas nossas imperfeições e quando Julia perguntou por que diabos eu estava saindo com a menina de sorriso classe média, respondi:
    "Porque ela não é o meu tipo."

    8 de mai. de 2004

    Algumas impressões particulares sobre a Bienal do livro

    De acordo com uma estatística que vi em algum lugar, mais de 80% da população brasileira não leu um livro sequer em 2003. Destes, creio que uma boa parte vai ler, pelo menos esse ano. Essa especulação está baseada em minha supresa quando vi o volumoso público presente à Bienal.

    Porém fiquei um pouco triste ao perceber o caráter de feira que a Bienal acaba por assumir para a maioria destas pessoas: a ávida busca por algo para se comprar e, quem sabe um dia, ler; quase sempre sem nenhuma noção ou referência. Para outros tantos, nada mais é que um roteiro de passeio, uma semana onde uma forma diferente de turismo é disponibilizada. Acentuando esse caráter de passeio, constata-se muitas e muitas atrações infantis e a grande maioria do marketing voltado para as crianças. A título de ilustração, nesse dia em que estava, os únicos "escritores" famosos que vi foram Maurício de Sousa e Ziraldo... Não critico a variedade do público-alvo, e a faixa etária infantil, mas sinceramente fico imaginando se o interesse em toda essa promoção é mesmo o estímulo à formação de novos leitores, ou simplesmente a conquista de mais uma fatia do mercado, um potencial a ser explorado.

    E por falar em mercado, outra coisa que salta aos olhos é a quantidade de editoras de cunho religioso, sejam católicas, espíritas ou protestantes. Livros espíritas são comuns de se ver, estão há mais tempo em circulação. E seguindo de perto essa onda, crescendo exponencialmente, estão as editoras católicas e protestantes, proliferando justamente entre pessoas que têm pouca ou nenhuma instrução (discernimento, crítica), uma exploração de pessoas que têm pouco (ou quase nada) a ser extirpado. O consolo que estas editoras oferecem a essas pessoas, ao contrário dos livros de auto-ajuda (que trazem respostas prontas e enlatadas), são algumas promessas absurdas, baseadas no "persevere com fé, que o seu dia há de chegar". E com perplexidade, elas fica contemplando... aquele estranho dia que nunca chega.

    Se o objetivo da Bienal é a popularização do livro pelo livro, creio que o cumpre bem, mesmo caracterizando-o como mais um objeto de consumo. A minha opinião é que esse apelo popular do qual ela está permeada, deveria ser melhor aproveitado em termos culturais, na transmissão de valores mais profundos e proeminentes, notadamente a valorização do livro como um instrumento de informação, formação, transformação e, até, libertação. E não encará-lo como um amuleto, um guia, um talismã, uma regra, um senhor opressor. Muito pelo contrário.

    Ouvi alguém dizer que o brasileiro lê pouco. E acabo tendo que concordar: lê um livro, de dois em dois anos.

    P.S.: Para quem quiser ver como aproveitei a Bienal: Fotolog

    17 de abr. de 2004

    Favela



    favela s. f. (...) 3 Regionalismo: Brasil. conjunto de habitações populares que utilizam materiais improvisados em sua construção tosca, e onde residem pessoas de baixa renda.
    4 Derivação: por extensão de sentido. Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo. lugar de mau aspecto; situação que se considera desagradável ou desorganizada.
    [Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa]

    Em 1970 a prefeitura de São Paulo transferiu, provisoriamente, 60 famílias, da Vila Prudente para a região entre os córregos Independência e Sacomã, um improviso que resultou numa favela com mais de 80 mil moradores. Hoje, ocupando cerca de 1 milhão de metros quadrados, entre o bairro do Ipiranga e São Caetano do Sul, está a maior favela de São Paulo, Heliópolis, a "Cidade do Sol". Ainda longe de brilhar, Heliópolis enfrenta problemas estrututrais: 40% das casas não têm esgoto, mais de 60% das ruas não são asfaltadas, mais de 250 famílias moram em barracos que podem desabar com a chuva.

    São 10 núcleos, onde a atuação dos traficantes é dividida entre dois principais grupos. Mas suas ruas não guardam apenas traficantes e mazelas, têm também, mais de 30 mil crianças entre 7 e 14 anos, procurando a maneira mais segura de aprender e crescer na favela.

    Pensei em fazer aqui um balanço de um mês trabalhando em Heliópolis. Até há um mês atrás, conhecia alguns lugares barra-pesada de Birigui (Vila Bandeirantes) e Londrina (Jardim União da Vitória), inclusive tendo trabalhado nesses dois lugares. Assim, a realidade com a qual me deparei em Heliópolis não foi pior do que eu estava esperando. Pelo contrário, fiquei surpreso com as melhorias que lá estão sendo feitas, frutos de muitas ações de cunho estritamente político. Porém, continua sendo a segunda maior favela (ou comunidade) do Brasil, atrás somente da Rocinha.

    A uns poucos prédios simples que ficam na entrada da comunidade, ouvi como referem-se a eles: "os predinhos que pegaram fogo"; o rapaz no ônibus falando que "outro dia num salão aí tava tão bebo (sic) que nem sabia se tava dançando com um homem ou uma mulher"; o treinador do Ratatá F. C. dizendo que só joga no time quem tem cabeça boa, quem faz besteira não entra; o curioso nome da rua principal, espinha dorsal da comunidade, Estrada das Lágrimas; o santuário de Santa Edwiges, a santa das causas impossíveis, o canal onde se concentram os piores barracos; a perifeira da favela, se isto é possível.

    Essas observações ocorrem-me em flashes facilitadas pelos exercícios de observação participante que fazia quando estudante. Uma realidade dinâmica, que se transforma em toda interação; e mais, cujo observador também acaba por transformar-se ao observá-la e interagir com seus elementos, dignos de nota.

    P.S.: A trilha sonora deste mês foi as compilações Favela Chic. Esse é o nome de um bar em Paris que toca música brasileira. Existe um clone dele aqui em São Paulo: o Favela, na Atílio Innocenti, mas eu nunca tive a oportunidade de ir. Talvez porque seja muito chique.

    9 de abr. de 2004

    Você é inteligente? Depende!

    Apesar de não ser muito chegado aos números, sempre gostei de problemas de lógica e, por extensão, lógica matemática. Há alguns dias atrás, deparei-me com um problema no blog de um amigo, problema que é mais braçal e acaba tendo a charada em seu enunciado. Ao tentar resolvê-lo, lembrei de um problema que tinha visto na época do vestibular: simples de ser resolvido, mas complicado de se saber quais das respostas possíveis é mesmo a correta. Sem mais delongas, vamos a ele:

    Um comerciante comprou uma cadeira por US$ 70, vendeu-a logo em seguida por US$ 80, comprou-a de volta por US$ 90 e vendeu-a novamente por US$ 100. Quanto foi o lucro dele nesta transação?

    As prováveis respostas são:

    Primeiro jeito de analisar o lucro:
    1. O comerciante comprou uma cadeira por US$ 70 e vendeu por US$ 80 - teve US$ 10 de lucro.
    2. Comprou novamente a cadeira por US$ 90 (após ter vendido por US$ 80) perdendo portanto US$ 10.
    3. Ele então vendeu por US$ 100 após ter comprado por US$ 90 portanto o lucro foi de US$ 10.

    Segundo jeito de analisar o lucro:
    1. Ele vendeu por US$ 80 após ter comprado por US$ 70 - lucro US$ 10.
    2. Ele então perdeu US$ 20 comprando-a de volta por US$ 90 (originariamente tinha pago US$ 70: 90-70=20).
    3. Ele então ganha US$ 10, vendendo por US$ 100 (100-90=10).
    4. Portanto, lucro US$ 10 - perda US$ 20 + lucro US$ 10 = zero, não houve lucro.

    Terceiro jeito de analisar o lucro:
    O total pago foi US$ 70 + US$ 90 = US$ 160
    O total vendido foi US$ 80 + US$ 100 = US$ 180
    Lucro total = US$ 20

    Temos portanto três respostas: 1. Ganhou US$ 10,00; 2. Não ganhou nada; 3. Ganhou US$ 20,00. Apenas uma das respostas é a correta. Qual delas?

    5 de abr. de 2004

    Lula, educação e Big Brother

    Daniel Piza é um colunista muito bom. Articula com inteligência e maestria assuntos importantes e delicados. Não perco suas colunas no Estadão aos domingos. Para terem uma noção do que estou falando, eis sua coluna de domingo retrasado. Confiram:

    A falta que a educação faz

    O primeiro exemplo da falta que a educação faz é o próprio presidente do Brasil. Lula voltou a dizer, num de seus incontáveis discursos, que "eles não acreditavam que um torneiro mecânico, sem instrução, pudesse governar o Brasil". Antes de mais nada, quem são "eles"? Bush, FHC, Mario Amato, Regina Duarte? O que falta a Lula não é diploma, é estudo - e estudo exige esforço, humildade, concentração. Com um pouco mais de estudo, Lula, no mínimo, poderia abandonar a paranóia do "eles" e ser mais preciso e coerente em seus discursos. Pois, enquanto despeja sua retórica de provérbios banais e hipérboles sebastianistas, seu governo pateticamente bate cabeça várias vezes ao dia, entre factóides e grosserias. Com a educação em quinto plano.

    No máximo, a instrução que Lula poderia ter adquirido nos 20 anos em que viveu da política sem exercer mais que um cargo público relevante faria dele um presidente muito melhor. Ainda que não exista diploma para presidentes, não há chefe político que possa cumprir parte razoável de suas promessas se não tiver um certo número de informações para comandar sua equipe. Tudo ficou ainda mais complicado quando Lula mudou seu discurso, a partir de 2002, para ganhar as eleições; sem os conceitos pseudoesquerdistas do passado, ele já não sabe o que pensa e não pensa o que diz.

    Como montar, assim, um bom time de ministros e assessores, exercer liderança sobre eles e despachar com eficiência? O folclore político ganhou vários acréscimos recentes com as gafes cometidas por Lula e companhia, como garantir a um conselheiro da Anatel que ele viria a ser... conselheiro da Anatel. Se ele se desse ao trabalho de despachar com os ministros ou realmente ouvir os setores da sociedade, o anedotário seria ainda maior. Mas por que não o faz? Porque não tem informação e compreensão suficientes para travar um diálogo sobre, digamos, agricultura com Roberto Rodrigues sem causar mal-estar nos presentes, já que imagina, no íntimo, que a solução para o campo brasileiro seja assentar todas as famílias sem-terra para plantar jerimum.

    Também não governa de fato porque se julga acima do bem e do mal - como um pequeno Napoleão, disse a historiadora Maria Silvia de Carvalho Franco - e, logo, deixa essas coisas práticas para o braço esquerdo José Dirceu e o braço direito Antonio Palocci, com seus assessores suspeitos e ciúmes mútuos. Neto de Getúlio e filhote de Jango, de seu populismo sindical, de seu peronismo à moda açucarada da casa, Lula continua vivendo de subir no trio elétrico, lançar palavras de ordem e semear o caos, sem noção da complexidade da economia e da sociedade em que vive. Simplesmente não pode enxergá-la.

    Aqui entra o segundo exemplo da falta que a educação faz: o Big Brother da TV Globo. Naquelas Solanges e Cidas há a prova mais cabal, o Provão mais contundente, do péssimo estado do ensino brasileiro - uma gente que não sabe falar "brócolis", acha que a África é um país, confunde "masoquista" com "narcisista", diz "personal trem" e "ofurunco", não sabe quantos minutos tem uma meia hora... e ainda por cima é arrogante! Tal como Lula, que realmente acredita ser um homem do povo subvertendo uma história de 500 anos, se orgulha de saber muito pouco e não está interessada em aprender de verdade. Essa pretensão nascida do despreparo, essa bazófia fundamentada em ignorância, é, até aqui, a marca mais lamentável de seu governo.

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